Liberdade em sociedade

Há uma frase muito popular que diz “a minha liberdade termina onde começa a do outro”, mas algo sobre isso não me parece correto. As liberdades individuais não são coisas que se excluem umas às outras, devem ser abrangentes umas das outras. Quero com isto dizer que, vivendo em sociedade e agindo da minha livre vontade, tenho de ter em conta os demais e as suas intenções. Isso não é um ato de submissão mas sim de tolerância. Claro que a maneira como me comporto tem consequências nos outros, assim como a maneira como os outros se comportam tem em mim. O ingrediente necessário para a convivência não virar uma receita falhada, é, na minha opinião, bom senso. Digo isto porque ter bom senso é uma combinação de ser razoável com a capacidade de fazer juízos éticos e morais corretos, guiados pela nossa intuição. Se este pressuposto se verificar, há uma grande chance da coexistência geral, funcionar sem grandes atritos. De outra forma, surgem problemas e conflitos que com o tempo e sem tratamento, podem escalar para assuntos graves. 

É exatamente por causa da última frase no primeiro parágrafo, que sempre que testemunhamos algo que consideramos errado, na minha opinião, devemos intervir. Atenção que não digo que devamos interromper um casal por não concordar com a forma como o homem está a falar com a namorada, mas se, usando esse mesmo exemplo, vemos o homem a bater na namorada, aí sim devemos agir. Eu sou uma pessoa baixa e sou mulher, nunca conseguiria enfrentar um homem com mais força do que eu com o objetivo de defender a mulher. No entanto, eu posso usar a minha voz. Se vir algo desse tipo, posso gritar e fazer barulho para que o público em geral tenha conhecimento do que se está a passar ou posso chamar alguém. O que eu sinto verdadeiramente dentro do meu ser é que se eu não fizer algo, eu vou sentir-me mal comigo própria. Não é uma questão de exibicionismo, não é para ter gratificação dos outros, é porque eu quero fazer o que acho certo. 

Uma técnica sobre a qual li, do que fazer quando precisamos de ajuda (para nós ou para outros), é a de nomear pessoas para ajudar. Quando alguém simplesmente grita, pode indicar pelo barulho e estado, que precisa de socorro. No entanto, as pessoas à volta podem não responder e isto deve-se ao facto de poderem pensar que outra pessoa irá ajudar, que alguém já foi em auxílio ou que a situação não é real. Por isso, nomear é essencial: apontar mesmo para a pessoa e dizer “tu, liga para a polícia”, ou “tu, vai chamar o vigilante”, algo do gênero. Assim a pessoa sente que o assunto é com ela mesmo, não há confusão possível e sente-se também  responsável sobre a situação. 

Não conseguimos controlar as ações dos outros, mas podemos controlar as nossas. Então, se todos nós, individual e coletivamente, lutarmos pelo respeito e pela dignidade do próximo — tal como gostaríamos que fizessem por nós — o mundo certamente será melhor.

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