Eu sou uma pessoa que não gosta de silêncio. Não gosto de silêncio exterior nem interior. Gosto de estar submersa em ruído, qualquer tipo, na verdade. Quando estou sozinha é certo que estarei a ouvir música e quando estou acompanhada mais certo é que vou preencher todos os silêncios com palavras. Existe em mim um desconforto desconcertante no que diz respeito a estar confinada aos meus pensamentos. Por isso mesmo, faço um esforço para os afogar o máximo que puder. Tento fazer uma gestão do ruído mental.
Desde que me lembro, que sou assim. Sempre encontrei conforto em estar fora da minha cabeça. Isso leva muitas vezes, no meu caso, a que procure estar rodeada de pessoas. Essas interações desviam o foco de mim sobre mim e passam-no para os outros. Isso pode ser bom ou mau, depende. Quando acabo por estar acompanhada, tendo isso como fundamento, pode acontecer que conheço/encontro pessoas muito “boas” e interessantes ou pessoas menos interessantes e até perigosas. Eu tenho a consciência de que sou por vezes ingénua, inconscientemente. Então pode ser que a troca de ideias tanto seja benéfica como prejudicial.
A minha necessidade de escapar de mim própria consegue ser por vezes maior que a minha necessidade de autopreservação. E então perguntas: mas se sabes disso, porquê que continuas a fazê-lo? Apesar de saber disso, eu estou tão embrenhada num loop interno negativo, que qualquer coisa é melhor do que ouvi-lo tocar repetidamente. Tenho as minhas razões para ser assim, algumas criadas por mim própria e outras em mim forçadas. De qualquer forma, pelo menos ultimamente, não tenho sentido necessidade de “chorar” sobre isso. É o que é. Não que me tenha habituado, mas simplesmente porque tenho encontrado maneiras de abafar a corrente de pensamentos internos. Maneiras mais negativas incluem sair à noite, beber e fumar. Maneiras mais positivas incluem quase exclusivamente estar com o meu namorado, com os meus pais e com os meus amigos. Não sinto falta de conhecer caras novas. Claro que se por acaso for a um bar e conversar com o/a bartender, gosto de conhecer, tenho interesse em ouvir as histórias das outras pessoas. Mas não tenho propriamente vontade de as reter na minha vida. Neste momento posso afirmar que tenho comigo pessoas essenciais e assim sendo, tenho tudo aquilo que preciso. Graças ao universo sempre tive os meus pais, mas dessas pessoas que mencionei, a mais importante e mais recente é sem dúvida o meu namorado. Claro que considero os meus pais o meu apoio incondicional, mas não é com eles que vou seguir a minha vida. Depois de eles já cá não estarem, vai ser com ele que eu vou encarar as alegrias, tristezas, surpresas e desapontamentos da vida. Talvez começar uma família. E para mim, isso tem um valor inestimável. Pode ser a diferença entre uma vida bem aproveitada e uma desperdiçada. Precisamente por ser como sou. Eu encontrei nele uma fonte de amor, apoio, controle adequado e infinito bem estar. Corro o risco de me habituar a isso e de um dia não o ter mais. Mas no amor quem não corre riscos, quem não se atira de cabeça, quem não perde um pouco a razão, não está realmente a amar. Está a tomar uma decisão ponderada. E para mim, pelo menos, o amor não é como uma decisão, é como um impulso que não dá para controlar.
Sou portanto muito grata pelas pessoas que tenho neste momento na minha vida. É o som das palavras delas que guia e encaminha a minha vida. Eu sei que tenho capacidade e tenho potencial, mas isso só é de possível acesso se estiver bem orientada. Eu sou o tipo de pessoa que requer que lhe metam os pés na terra de vez em quando. Continuo não resolvida e ainda que perdida nos meus ciclos viciosos, sei que tenho a minha rede social de segurança e que tenho espaço para fazer as minhas acrobacias sem ter medo de cair do trapézio.
